A lagoa da flor-de-lis

O rei sapo vivia na lagoa da flor-de-lis. A lagoa era calma e de uma beleza extraordinária. Nada parecia perturbar o rei nem os restantes habitantes da lagoa, que ali viviam juntos e felizes.

Certo dia, apareceu na lagoa um homem, de ar sério e carrancudo. O rei sapo nunca o tinha visto por ali e, intrigado, pôs-se à espreita, de forma a tentar perceber o que o homem queria. Rapidamente se apercebeu que o estranho homem tinha sido enviado pela rainha para construir uma ponte na lagoa. O rei sapo ficou aterrorizado: se a ponte fosse construída a lagoa nunca mais voltaria a ser como dantes. Todo aquele paraíso seria destruído e as suas casas estariam severamente ameaçadas. Ele não podia ficar indiferente àquela situação. Tinha de fazer alguma coisa, e depressa.

Sem perder mais tempo, o rei sapo pôs-se a caminho, tentando encontrar alguém que o pudesse ajudar. Foi primeiro a casa dos três irmãos porquinhos, que tendo conseguido livrar-se do lobo mau, talvez tivessem alguma ideia para o ajudar. Os três porquinhos queriam ajudar, mas não sabiam como. O lobo mau era só um, bastou que apanhasse um susto para fugir a sete pés. A rainha não iria desistir de mandar construir a ponte assim tão facilmente.

Sem solução à vista, foram todos a casa dos ratinhos, que viviam ali perto. Se eles tinham conseguido livrar-se do gato malhado e dos amigos, talvez eles pudessem ajudar o rei sapo. Mas também os ratinhos não arranjaram solução. O gato malhado e os amigos eram matreiros e tinham fugido por causa do cão da Dona Inês e não por causa deles, pequenos ratos.

Sem nunca perder a esperança decidiram todos ir pedir ajuda à bruxa do vale. De certeza que ela podia fazer alguma coisa. O rei sapo contou o problema à bruxa e ela teve logo uma ideia brilhante. Iria fazer uma poção mágica capaz de pôr qualquer um a dormir o dia inteiro.

A bruxa preparou um caldeirão bem cheio de poção que, em conjunto, transportaram para a lagoa. A partir desse dia, os sapos da lagoa passaram a trocar a água do homem pela mesma quantidade de poção, fazendo com que o homem dormisse o dia todo e não conseguisse avançar com o trabalho.

Ao fim de algum tempo a rainha começou a ficar impaciente. Não conseguia compreender a demora na construção da ponte e por isso mandou alguém espiar. Não demorou muito para que a rainha descobrisse o que se passava. A bruxa do vale foi chamada à presença da rainha que a avisou que a expulsaria do reino se esta continuasse a produzir a tal poção.

Sem a ajuda da bruxa o rei sapo foi em busca da fada Margarida. Era a sua última esperança. Andou, andou, andou até chegar finalmente a casa da fada. Com ele foram também os porquinhos e os ratinhos, que continuavam a querer ajudar. A fada Margarida tentou resolver a situação com a sua varinha mágica. Disse as palavras mágicas, balançou a varinha, mas nada. Nenhum dos seus feitiços servia para aquele problema. Então a fada parou, pensou e concluiu:

– Só há uma solução. Têm que encontrar a chave encantada e a maçã dourada. Só com as duas iremos conseguir resolver o problema.

E para os orientar, acrescentou:

– A chave encantada está escondida numa torre muito alta, abandonada nos confins do reino, e a maçã dourada na zona mais densa e escura da floresta.

A tarefa parecia impossível, mas o rei sapo e os amigos estavam determinados e nada os parecia demover.

Andaram por estradas e caminhos sombrios, atravessaram rios e riachos, subiram e desceram montanhas, até finalmente avistarem ao longe uma torre. A torre era enorme, excessivamente alta para a sua largura e tinha ar de estar abandonada há muito tempo. Rapidamente concluíram que devia ser aquela a torre da chave encantada.

– Mas como é que vamos subir? Nenhum de nós tem asas. – disse timidamente um dos porquinhos.

– Nós somos construtores meus amigos, de certeza que somos capazes de construir uma escada até lá acima! – lembrou o irmão mais velho, que tinha muita experiência em construções complicadas.

E puseram-se ao trabalho. O sapo pediu ajuda aos seus amigos castores que, sem demoras, começaram a cortar madeira para a construção da escada.

Demorou muito tempo, foi uma tarefa difícil e todos ficaram exaustos, mas lá conseguiram chegar ao cimo da torre, subindo por uma escada a perder de vista. E conforme a fada Margarida tinha referido, a torre estava mesmo abandonada e, por isso, facilmente os ratinhos encontraram a chave, muito bem guardada num pequeno cofre.

Já só faltava a maçã dourada para a tarefa estar concluída. Puseram-se então a caminho da floresta, em busca da árvore maravilhosa, que dava aquelas maçãs.

A zona mais densa da floresta era escura mesmo quando o sol brilhava mais forte. Para o rei sapo, que nunca tinha saído da sua lagoa, aquele sítio era verdadeiramente assustador.

Perguntaram a todos os animais que encontraram pelo caminho onde crescia a árvore das maçãs douradas, mas ninguém parecia saber da sua existência. Será que as maçãs existiam mesmo? Teria a fada Margarida a certeza do que dizia?

Uma pequena abelha, que por ali passava, ouviu a conversa que o rei sapo teve com um esquilo e aproximou-se dizendo:

– Eu conheço a maçã de que falam. Não existe nenhuma árvore de maçãs douradas. Ali ao fundo, perto da toca dos coelhos, nasce um pequeno arbusto. Esse arbusto dá um único fruto por ano: aquilo a que vocês chamam de maçã dourada.

O rei sapo e os amigos apressaram-se a ir ao encontro do arbusto, mas parecia impossível chegar até ele. À sua volta, um mar de silvas e espinhos impediam o acesso ao arbusto.

Com a determinação que já lhes era conhecida, os ratinhos disseram:

– Somos pequenos e corajosos. Não há espinhos que nos metam medo!

E com isto, começaram a roer pacientemente, de forma a abrirem caminho por aquele emaranhado de silvas.

Finalmente tinham a chave e a maçã! Que grande aventura aquela.

Voltaram a casa da fada Margarida que ficou radiante por os ver. Nunca pensou que eles conseguissem encontrar o que lhes pedira, mas agora não havia nada que os impedisse de salvar a lagoa.

A fada Margarida foi até à lagoa, atirou a chave e a maçã para dentro de água e disse umas palavras mágicas que ninguém compreendeu. Depois sorriu, despediu-se e foi-se embora. Todos ficaram incrédulos. Estava tudo igual. O que teria acontecido?!

Na manhã seguinte, a rainha foi até à lagoa. E em voz bem alta disse:

– Habitantes da lagoa da flor-de-lis, hoje tive um sonho. Um sonho tão real que nem tenho a certeza que fosse um sonho. Um sonho em que a valentia de um pequeno grupo de amigos me fez pensar e questionar as minhas decisões. Queria construir aqui uma ponte. E a minha intenção era boa. Queria tornar o reino mais próspero e facilitar a vida a todos os que cá vivem. Mas percebi que esta lagoa é demasiado rica para ser perturbada. Não que a água seja especial ou as terras que a circundam sejam diferentes das demais. É rica porque os seus habitantes a amam e nela vivem felizes. Por isso, vou mudar os meus planos e fazer uma estrada um pouco mais afastada. Para que a calma e a beleza desta lagoa não sejam perturbadas.

O dia foi de festa na lagoa. Gotas de chuva fortes começaram a cair, mas nada impediu os habitantes da lagoa de festejar. Dançaram à chuva, cantaram à chuva e um a um agradeceram à rainha por ter mudado de ideias.