O mel mágico

Naquela manhã, o ursinho acordou cheio de vontade de comer mel. Foi ter com o seu amigo coelho e convidou-o a irem até à grande colmeia.

A grande colmeia ficava mesmo no meio do bosque e tinha o melhor mel das redondezas. O mel era tão bom, que todos o queriam provar. Mas era muito difícil convencer as abelhas a darem um pouco do seu mel. Elas só davam em dias especiais e só um bocadinho a cada um.

Mas o ursinho queria mesmo comer mel, por isso lá foram, ele e o coelho, até à grande colmeia.

– Olha que não vais conseguir que te deem mel hoje, ursinho. – avisou o coelho – As abelhas têm andado especialmente atarefadas nos últimos dias.

O ursinho encolheu os ombros.

Quando lá chegaram viram dezenas de abelhas, muito apressadas, a voar para a colmeia. Devia ser um dia especial, para haver tanta algazarra. O ursinho ficou a olhar para o mel. Estava especialmente brilhante, como nunca o tinha visto antes.

– Vou lá acima e tiro um bocadinho. Com esta confusão, ninguém vai reparar! – disse o ursinho ao coelho.

O coelho ainda tentou responder, mas em vão. Mal acabou de falar, o ursinho começou logo a subir pelos ramos da árvore, tentando chegar ao mel que pingava da colmeia.

Sentou-se num dos ramos mais escondidos, longe da vista das abelhas, e esticou-se para apanhar o mel. O mel era fabuloso, extremamente doce, o melhor que alguma vez tinha provado.

Já todo lambuzado de mel, o ursinho começou a sentir-se estranho e, de repente… PUF, transformou-se em esquilo.

O ursinho ficou aflito. Que teria acontecido? Desceu rapidamente da árvore, foi ter com o coelho e contou-lhe o sucedido.

O coelho ficou sem palavras. Nunca tinha visto nada igual.

– Precisamos de ajuda, e depressa. Temos que ser rápidos ou ficas assim para sempre. Vamos reunir para tentarmos encontrar uma solução em conjunto.

Todos os amigos apareceram para ajudar, mas ninguém sabia o que fazer.

– Só há uma coisa a fazer – disse calmamente o mocho – tens que ir novamente à grande colmeia e perguntar às abelhas. Só elas te podem explicar o que se passou.

– Está bem, eu vou. Espero que elas não se zanguem muito comigo. – disse o ursinho (agora esquilo) desanimado.

Quando chegou à colmeia, o ursinho (agora esquilo) dirigiu-se a uma das abelhas que guardava a entrada da colmeia.

Depois de explicar o que tinha acontecido, a abelha entrou na colmeia dizendo apenas:

– Espera aqui!

O ursinho (agora esquilo), esperou, esperou, esperou. Passaram-se horas e nada. Outras abelhas apareceram para guardar a colmeia. Muitas abelhas entraram e saíram, mas nenhuma falava com ele.

Ao final do dia, quando todas as abelhas já tinham recolhido, apareceu então a abelha rainha. O ursinho (agora esquilo), que tinha adormecido encostado a um dos ramos, acordou num salto. Um pouco nervoso e envergonhado, contou tudo à rainha, acabando com um “prometo não voltar a fazer”.

– Este não é um mel normal: é mágico. – explicou então a abelha rainha – O Grande Mestre do Oeste criou um feitiço especial para nos ajudar. O Outono está quase a chegar e temos poucas reservas de mel. Com este feitiço temos conseguido produzir mais e melhor mel em pouco tempo.

E acrescentou:

– Mas não sabíamos que tinha outros efeitos. A nós abelhas, o mel não faz nada.

O ursinho (agora esquilo) agradeceu a explicação e perguntou onde poderia encontrar o Grande Mestre do Oeste.

– Procura-o no jardim encantado da avó Anita. – e dito isto, a abelha rainha voltou para a sua colmeia.

O jardim encantado da avó Anita era maravilhoso. Tinha duas grandes árvores que davam frutos de todas as espécies conhecidas. E não eram uns frutos quaisquer. Eram os mais bonitos e deliciosos de que há memória. Ora o Grande Mestre do Oeste era muito guloso e adorava aquelas árvores. Não é de admirar que escolhesse sempre aquele jardim para passar uns belíssimos dias de férias.

O ursinho (agora esquilo) e o coelho puseram-se a caminho.

Primeiro tiveram que passar pelo túnel do monte frio. O túnel do monte frio é escuro e muito comprido. É quase impossível atravessa-lo sem iluminação.

Quando lá chegou, o coelho teve logo uma ideia:

– E se chamássemos o Saraiva? Com ele a iluminar o caminho, é muito fácil atravessar este túnel.

O Saraiva era um pirilampo simpático e divertido. Quando o chamaram, apareceu logo, pronto para uma aventura.

O coelho levou o Saraiva às cavalitas e num instante atravessaram o túnel.

– Amigos, chamem-me sempre que precisarem. Isto foi mesmo divertido! – disse o pirilampo, que adorou andar às cavalitas do coelho.

Os amigos continuaram o caminho até chegarem ao grande lago. Mas mais uma vez, não conseguiam atravessa-lo sem ajuda.

O ursinho (agora esquilo) tentou chamar o sapo Basílio, mas este não apareceu. Quem apareceu foi um sapo muito pequenino chamado Roberto.

– Olá amigos, eu sou o Roberto. O Basílio não está cá. Aproveitou os dias de sol e foi de férias para a lagoa da flor-de-lis. Parece que tem lá uns primos e gosta muito de lá ir de vez em quando. Mas digam-me o que precisam, que eu tento ajudar-vos.

Os amigos explicaram que queriam atravessar o lago e porquê que tinham que o fazer. O Roberto queria ajudar, mas ele era de facto muito pequenino. Pensou durante um bocado e depois disse:

– Não se preocupem amigos. Vou chamar a Belinha e ela ajuda-vos de certeza.

A tartaruga Belinha saiu do lago quando o Roberto cantarolou o nome dela. Era uma tartaruga enorme, tão grande que facilmente atravessou o lago com o ursinho (agora esquilo) e o coelho às costas.

Tudo corria lindamente. Os amigos despediram-se da Belinha e seguiram caminho, em direção ao bosque do vale dos mochos.

O bosque do vale dos mochos é muito denso e sombrio, o que torna difícil atravessa-lo. São poucos os animais que se aventuram por lá, com medo de nunca mais conseguirem sair. Nem o ursinho (agora esquilo) nem o coelho lá tinham ido antes. Sempre que se falava no bosque do vale dos mochos, todos estremeciam, por causa das histórias terríveis que se contavam sobre o vale.

Os amigos entraram no vale e rapidamente se aperceberam que não se conseguiam orientar:

– Não passámos por esta árvore à bocado? – perguntou o coelho.

– Hmmm… parece-me que já vi esta pedra antes. – suspirou o ursinho (agora esquilo).

Depois de muitas voltas o ursinho (agora esquilo) decidiu pedir ajuda:

– Assim não vamos conseguir. Vou chamar o Sr. Mocho. Precisamos de ajuda.

E subiu à árvore mais alta que encontrou e chamou pelo Sr. Mocho. A voz dele ecoou por todo o vale, como se mil vozes como a dele estivessem a chamar também.

O Sr. Mocho tinha família por ali e conhecia muito bem o sítio. Quando chegou estranhou o ursinho (agora esquilo).

– Eu não vos conheço, como é que sabem o meu nome? – perguntou o Sr. Mocho, intrigado.

O ursinho (agora esquilo) explicou tudo ao Sr. Mocho, que logo se prontificou para os ajudar.

Como conhecia muito bem o bosque, o Sr. Mocho conseguiu levar os amigos até ao jardim encantado da avó Anita.

No jardim encantado encontraram logo o Grande Mestre do Oeste, feliz, a comer ananás e morangos acabados de colher.

O ursinho (agora esquilo) contou tudo o que tinha sucedido, na esperança que facilmente o Mestre resolvesse o problema.

– Hmmm… Não sabia que o meu feitiço tinha esses efeitos secundários. Não estava à espera que alguém comesse o mel. Era suposto ser só para as abelhas. – disse o Grande Mestre do Oeste.

– Isso quer dizer que não me pode ajudar? – perguntou desanimado o ursinho (agora esquilo).

– Claro que posso ajudar. Nada é impossível para o Grande Mestre do Oeste! Mas preciso do meu livro de magia e de uma poção mágica especial que tenho em casa. – disse o mestre. – Tenho que voltar convosco.

Os amigos olharam um para o outro um pouco desanimados por pensar que tinham de voltar a atravessar o bosque do vale dos mochos.

– Não se preocupem, não vamos voltar pelo bosque – descansou-os o Mestre – eu viajo sempre no meu tapete mágico. Chegamos lá num instante.

O Grande Mestre do Oeste agarrou no seu tapete, disse as palavras mágicas e… nada. Não funcionou. O tapete ficou imóvel, como qualquer tapete comum.

Olhou, olhou, olhou e finalmente descobriu um buraquinho, muito pequeno, mesmo no meio do tapete.

– Ah, cá está ele. Só podia ser isto. Os tapetes voadores não funcionam se tiverem buracos, toda a gente sabe. – disse o Mestre. – Temos que coser este buraco o quanto antes. Precisamos de teia de aranha e fio de seda.

– Pronto, vamos mesmo ter que voltar pelo bosque. – concluiu o coelho.

– Nada disso, de certeza que encontramos alguma aranha no jardim encantado da avó Anita. – retorquiu o Mestre.

Voltaram os três ao jardim, mas não havia aranhas em lado nenhum. Parecia impossível: um jardim daqueles sem uma única aranha.

Uma formiga percebeu o que eles queriam e dirigiu-se ao Grande Mestre do Oeste:

– Grande Mestre, já não há aranhas neste jardim há algum tempo. Fugiram todas, por causa do gato Sebastião e dos amigos. Como o jardim da Tia Celeste está abandonado, todas as aranhas das redondezas foram para lá.

O jardim da Tia Celeste era muito perto dali, por isso rapidamente lá chegaram.

Ao chegarem o cenário era desolador: tudo estava murcho, apenas as ervas daninhas cresciam e pintavam o jardim outrora cheio de cor.

Ao fundo, uma enorme teia de aranha brilhava ao sol. O Grande Mestre do Oeste dirigiu-se a ela e falou simpaticamente com as aranhas que por lá estavam.

– Precisava muito da vossa teia para poder arranjar o meu tapete mágico. Será que me podem dar um bocado?

Uma aranha enorme surgiu e respondeu-lhe:

– É sempre uma honra ajuda-lo Mestre, pode levar o que precisar.

Como forma de agradecimento pela teia cedida, o Grande Mestre do Oeste fez crescer flores e plantas maravilhosas por todo o jardim.

De seguida regressaram ao jardim encantado da avó Anita, pois ainda lhes faltava encontrar bichos-da-seda. Só a combinação perfeita entre a teia de aranha e a seda permitiriam fazer o tapete funcionar novamente.

Procuraram por todo o lado, mas também não havia bichos-da-seda no jardim. O escaravelho André, que por ali andava, resolveu tentar ajuda-los.

– Este ano não temos bichos-da-seda, mas lembro-me que há alguns anos esteve cá um que deixou ficar o seu casulo. – disse o escaravelho – É uma questão de procurarmos com cuidado, que de certeza o casulo ainda aí está.

Após várias voltas dadas ao jardim, o coelho já só queria desistir:

– Grande Mestre, vamos embora, não vale a pena procurar mais.

E foi mesmo nessa altura que apareceu uma lagartinha que lhes perguntou:

– É disto que estão à procura? Tem sido uma ótima cama para os dias mais frios.

O Mestre explicou à lagarta porque precisava do casulo e esta, apesar de ficar triste por perder a sua cama, logo ofereceu o seu casulo.

– Esperem, não vamos deixar a lagartinha sem cama! – disse o ursinho (agora esquilo).

E puseram mãos à obra. Com algum pelo e muitas folhas conseguiram construir uma nova cama bem quentinha para a lagarta. Isso deixou-os muito satisfeitos, pois não queriam deixar a lagarta ao frio.

Já com a teia de aranha e o fio de seda em sua posse, o Grande Mestre do Oeste pôde, finalmente, coser o seu tapete mágico.

– Trago sempre comigo esta agulha. É feita de espinha de peixe e foi encantada por mim há muitos anos. Sem ela, seria impossível coser o tapete. – disse o Mestre manejando agilmente a agulha.

Quando terminou, o tapete começou logo a flutuar, e os amigos puderam voltar para casa a voar.

Andar de tapete mágico era divertido. E quando passaram pelo túnel foi especialmente espetacular. Milhares de pirilampos acompanharam o tapete no túnel, deixando-o completamente iluminado. Pela primeira vez puderam ver como o túnel era bonito: cheio de cores e animais maravilhosos nas paredes.

Quando chegaram a casa, o Mestre foi buscar a poção e o livro mágico e recomendou que o ursinho (agora esquilo) e o coelho esperassem em casa juntamente com os amigos.

Os dois cumpriram as indicações do Mestre e ficaram em casa à espera que este voltasse.

– Não percebo o que se passa, a casa do Mestre é mesmo aqui ao lado. Que terá ido ele fazer? – resmungou o coelho, após largas horas de espera.

– Desculpem-me a demora. – disse o Mestre, entrando de rompante – Tinha emprestado o meu livro mágico à minha irmã, mas ela não estava em casa, tinha ido tomar chá com as manas galinhas.

O Mestre sentou-se e dirigiu-se ao ursinho (agora esquilo):

– Assim que eu acabar de ler as palavras mágicas, tens que beber esta poção até à última gota. É muito importante que não sobre nem uma gota.

Dirigindo-se a todos os amigos, acrescentou:

– E vocês têm que bater palmas enquanto ele estiver a beber. Atenção que não podem parar enquanto não estiver tudo bebido.

O Mestre começou então a ler as palavras mágicas. Estavam todos muito nervosos, ninguém queria falhar. Assim que o Mestre acabou de ler, o ursinho (ainda esquilo) bebeu de seguida toda a poção, enquanto os seus amigos batiam palmas. Quando parou de beber, todos pararam também, exceto o coelho.

– Não, não pares, falta uma gota! – disse o coelho enquanto continuava a bater palmas.

Quando finalmente o ursinho (ainda esquilo) bebeu a última gota, foi como anteriormente… PUF, e voltou a ser urso outra vez.

Seguiu-se uma enorme salva de palmas e agradecimentos ao Grande Mestre do Oeste. Que grande aventura aquela.

Para festejar, o ursinho foi buscar alguns frascos de mel que tinha guardados. O silêncio invadiu a sala nesse momento.

– Não se preocupem amigos, este de certeza que não é mágico. – disse o ursinho com um sorriso.

E festejaram toda a noite, com muita alegria, o ursinho ter voltado ao normal.