Luzinhas, o pirilampo friorento

O Luzinhas não era um pirilampo qualquer. Era simpático, brincalhão, amigo de todos. Mas tinha um grande problema: era um pirilampo muito friorento.

Ele não gostava nada de andar na rua quando estava frio. A mãe andava sempre muito preocupada, pois o Luzinhas nunca queria sair de casa.

– Luzinhas, não podes ficar sempre em casa. Tens que ir lá para fora, brincar com os teus amigos. – dizia-lhe constantemente a mãe.

– Oh mamã, mas lá fora está tanto frio! – respondia tristemente o Luzinhas – Eu não quero ir lá para fora, eu só quero ficar aqui, no quentinho.

O Luzinhas adorava o verão. No verão ele fartava-se de brincar. Saía com os amigos, passeava o dia inteiro, era verdadeiramente feliz. Mas no outono e no inverno o Luzinhas ficava triste, deprimido e não queria sair de casa de maneira nenhuma.

Certo dia a mãe, de tão preocupada, resolveu oferecer-lhe um cachecol. O cachecol era incrivelmente quentinho, o que deixou o pirilampo muito contente. Mas, à primeira tentativa de sair de casa, o Luzinhas desistiu. O cachecol afinal não chegava: é verdade que lhe aquecia o pescoço, mas as suas patinhas continuavam geladas.

Então a mãe do Luzinhas resolveu oferecer-lhe umas luvas. As luvas eram muito boas também, mas, mais uma vez, o Luzinhas continuava a não querer sair de casa.

– Oh mamã, continuo com muito frio. – disse o Luzinhas. – Então, mas com as luvas, as tuas patinhas não podem estar frias. – respondeu a mãe. – Não, estão ótimas, mas o meu rabo, o meu rabinho luminoso continua frio. – acrescentou o pirilampo.

Ele precisava de roupas quentinhas em todo o lado, por isso a mãe resolveu oferecer-lhe um fato completo:

– Luzinhas, com este fato é impossível teres frio. Nunca mais vais ter frio.

O Luzinhas ficou radiante. Com aquele fato ele não tinha mesmo frio. Só que mesmo assim ainda havia um problema. Aquele fato, que era mesmo quentinho e que o Luzinhas adorou, escondia a luz do pirilampo. E um pirilampo sem a sua luz, não é um pirilampo feliz.

O Luzinhas ficou triste outra vez.

Então, o pai do Luzinhas teve uma ideia ainda melhor:

– Vamos construir um fato à medida do Luzinhas. Um fato que seja transparente no rabo e todo ele muito quentinho.

A família inteira achou aquilo um pouco estranho.

– Isso é impossível, não dá para fazer. – disse a irmã mais nova do Luzinhas.

– Acho que não conseguimos arranjar uma roupa que seja quentinha e transparente ao mesmo tempo. – acrescentou a mãe.

E realmente parece que era impossível. O pai tentou com vários materiais diferentes. Mas sempre que o material era transparente, o Luzinhas tinha frio.

Muito desanimados, aos poucos, foram desistindo de tentar convencer o Luzinhas e de tentar aquecer o Luzinhas.

Certo dia o Luzinhas decidiu ir dar um passeio. O dia parecia bom e mais quente que o habitual, o que deu coragem ao Luzinhas para se aventurar na rua. Mas correu-lhe mal. O sol da manhã deu lugar a muitas nuvens e rapidamente o tempo arrefeceu.

Já a tremer de frio e a tentar voltar para casa, o pirilampo encontrou uma menina. Uma menina com muitos casacos. Parece que era uma menina friorenta, tal como ele. Ele estava com tanto frio que resolveu ir falar com a menina:

– Menina, posso aquecer-me aí, no teu casaco? É que estou cheio de frio.

– Mas quem és tu? Eu não te conheço. Sabes que eu não posso falar com estranhos? – disse a menina.

– Sou apenas um pequeno pirilampo. Eu só me quero aquecer um bocadinho. Prometo que depois me vou logo embora. – disse o Luzinhas a tremer.

– Está bem, pronto, mas só um bocadinho. E é só porque és um pirilampo. Acho que quando a minha mãe me diz que eu não posso falar com estranhos ela só está a falar de pessoas. Não está a falar de pirilampos. Por isso está bem, eu deixo-te aqueceres um bocadinho no meu casaco.

O Luzinhas foi então, muito enregelado, assim meio a tremer, ter com a menina e ficou bem quentinho no casaco dela. Ele tinha prometido que era só um bocadinho, mas acabou por se deixar ficar e não queria ir embora.

Passado muito, mas mesmo muito tempo, a menina disse-lhe:

– Oh pirilampo… como é que te chamas mesmo?

– Eu sou o Luzinhas. – disse baixinho o pirilampo.

– Que nome engraçado. Eu sou a Matilde. – apresentou-se a menina e continuou – Luzinhas, eu acho que tu tens que te ir embora agora. Já é muito tarde e a minha mãe está à minha espera. Eu não posso continuar aqui.

– Mas está tão quentinho, eu não me quero ir embora já. – respondeu o pirilampo.

O Luzinhas estava a adorar a menina, e principalmente aquele casaco tão quentinho que ela tinha.

– Não te vás embora que eu quero ficar aqui. – pediu mais uma vez.

– Desculpa mas eu tenho mesmo que ir. Já é muito tarde! Se quiseres, amanhã, eu passo aqui outra vez. E deixo-te voltar a estar quentinho no meu casaco. – disse a menina.

– Está bem, combinado. – respondeu feliz o Luzinhas.

E no dia seguinte, para grande espanto de toda a família pirilampo, o Luzinhas anunciou:

– Hoje vou sair, até logo.

Ficaram todos admirados:

– Mas hoje está tanto frio, tens a certeza que queres sair?

– Tenho, não se preocupem. Eu levo as minhas luvas e o meu cachecol.

E lá foi o pirilampo, perante o ar perplexo de toda a família.

E lá estava a Matilde, conforme combinado, no mesmo banco de jardim. E o Luzinhas lá se aconchegou no casaco quentinho dela.

E assim aconteceu, durante vários dias seguidos. Todos os dias o pirilampo saía, mesmo quando estava mais frio, ia ter com a Matilde e ficava com ela imenso tempo.

Ficaram tanto tempo juntos que começaram a conversar e tornaram-se amigos. O Luzinhas sabia histórias fantásticas, incríveis, de outros pirilampos como ele. E a Matilde sabia histórias muito engraçadas e divertidas de outras meninas como ela. Como o pirilampo nunca tinha tido uma amiga menina e a menina nunca tinha tido um amigo pirilampo, adoraram as histórias um do outro e tornaram-se grandes amigos.

Certo dia, a Matilde trouxe um presente para o Luzinhas. Muito maior do que ele, uma caixa grande, muito bonita e muito bem embrulhada.

– Anda, vá lá, abre o teu presente. – disse a Matilde.

O presente era muito maior do que o Luzinhas e por isso ele teve alguma dificuldade em abri-lo. Para a menina era um embrulho pequenino, mas para o pirilampo era gigante. Quando finalmente conseguiu abrir, o Luzinhas ficou parado, a olhar para a caixa enorme, toda transparente, com furinhos a toda a volta e com um cobertor muito quentinho lá dentro. O Luzinhas não percebeu muito bem o que aquilo era:

– Mas o que é isto? Isto não dá para vestir, pois não?

A Matilde explicou então:

– Isto é uma caixa para nós podermos brincar. Estás sempre aqui fechado dentro do meu casaco e assim não conseguimos fazer nada e tu nem sequer podes acender a tua luzinha. Dentro desta caixa transparente tens um cobertor quentinho para te aqueceres. E como a caixa é fechada, só com uns furinhos para respirares, não vais ter frio nenhum. Assim podemos divertir-nos juntos, passear, saltar. Vai ser divertido!

O Luzinhas achou aquilo muito estranho, mas decidiu experimentar.

A Matilde agarrou na caixinha, o pirilampo entrou lá para dentro e foram passear.

O Luzinhas gostou muito do seu presente. É verdade que dentro da caixa não conseguia voar, mas com aquele frio, quem é que ia querer voar!? E a Matilde também gostou porque podia correr, saltar e brincar à vontade.

– Olha ali em cima, um ninho de passarinhos. – disse a menina.

E treparam à árvore para ver o ninho.

– Olha ali em baixo, uma toca de coelhos. – disse a menina.

E foram a correr ver a toca.

Brincaram durante horas e horas até chegar a hora de irem para casa.

E o mesmo aconteceu durante todo o inverno. Juntos, o Luzinhas e a Matilde, exploraram o mundo à sua volta. Não havia pedra que eles não revirassem, nem árvore que eles não subissem. Tudo era motivo de brincadeira e diversão.

Certo dia, numa altura em que os dias já estavam mais quentes, o Luzinhas avisou a Matilde de que não ia poder brincar com ela durante algum tempo.

A menina ficou um pouco triste, mas compreendeu. O problema é que se passaram muitos dias e o Luzinhas não voltou a aparecer. Desanimada, a Matilde foi perdendo a esperança de voltar a ver o amigo. “Está bom tempo, o Luzinhas já não precisa de mim”, pensava a menina com tristeza.

Os dias passaram e chegou o dia do aniversário da Matilde. Ela ganhou alguma esperança que nesse dia, por ser o seu aniversário, o Luzinhas aparecesse. Mas em vez do Luzinhas, apareceu um outro pirilampo, que a menina nunca tinha visto.

– Anda, vem comigo. O Luzinhas pediu-me para te vir chamar. – disse-lhe o pirilampo desconhecido.

A Matilde achou aquilo muito estranho. Após tanto tempo sem aparecer, vem outro pirilampo ter com ela!? Teria acontecido alguma coisa ao seu amigo? Resolveu ir com ele.

Seguiram até chegar junto de uma grande árvore, que havia ali perto. Depois pararam. A menina não compreendeu.

– Olha, ali em cima, temos que subir. – disse-lhe o pirilampo.

Quando a Matilde olhou para o cimo da árvore, descobriu a mais maravilhosa casa feita numa árvore que alguma vez tinha visto. Rapidamente subiu até lá.

Lá dentro estava tudo escuro. O sol já se tinha posto, por isso nada iluminava a casinha.

– Senta-te aqui. – disse o pirilampo, apontando com a sua luzinha para uma cadeira.

De repente a Matilde começou a ouvir música e, pirilampo a pirilampo, toda a casinha ficou iluminada. O espetáculo era incrível. A Matilde nunca tinha visto tantos pirilampos juntos. Numa coreografia perfeita, dezenas de pirilampos dançavam pela casa. No centro, por cima de uma grande mesa, estava um bolo enorme, também ele coberto por pirilampos.

– Uau, que lindo. – disse a Matilde um pouco incrédula.

O Luzinhas veio então ter com a menina:

– Parabéns amiga. Gostas da tua surpresa? – perguntou-lhe sorrindo.

– Adoro, Luzinhas, está absolutamente lindo! – respondeu a Matilde.

– Desculpa se não tenho ido brincar contigo. Demorei muito tempo a construir esta casa e a preparar a tua festa. Pensei que conseguia fazer tudo mais depressa, mas foi impossível. Felizmente tive muitos amigos que me ajudaram, senão teria sido impossível. – desculpou-se o Luzinhas.

– Fizeste uma casinha maravilhosa para mim, graças a ela, este foi o melhor Inverno de sempre. Queria retribuir o que tens feito por mim. – acrescentou o pirilampo.

– E eu a pensar que já não querias brincar comigo… obrigada, Luzinhas! – disse feliz a menina.

Quando chegou a hora de cantar os parabéns, todos os pirilampos que estavam em cima do bolo se organizaram para fazer a forma de uma vela. No final, a menina “apagou” a vela e todos os pirilampos deram um salto, de uma vez, como se tivessem sido realmente soprados.

Pouco a pouco os pirilampos foram embora e ficaram só o Luzinhas e a Matilde.

– Tenho que ir para casa agora. Adorava passar aqui a noite contigo, mas tenho mesmo que ir. Obrigada pela festa. Adorei! – disse a Matilde.

– Se quiseres faço-te companhia, para não ficares sozinha. – disse o Luzinhas.

A Matilde concordou e o Luzinhas foi com ela até casa.

Os dias já estavam quentes, mas as noites ainda eram um pouco frias. No quarto, a Matilde tinha um aquecedor, que ficava ligado durante a noite para ela não ter frio. Quando o Luzinhas viu o aquecedor, ficou maravilhado.

– Uau, tu tens um quentinho só para ti? – disse admirado – Isto é incrível!

A Matilde riu e disse, sorrindo:

– Podes ficar aqui no quentinho o tempo que quiseres.

– Obrigada! Dorme descansada, eu fico aqui ao pé do quentinho a noite inteira a fazer-te companhia. – respondeu o Luzinhas.

A Matilde ficou muito feliz. Ter a luz do Luzinhas toda a noite ao pé dela, fazia sentir-se segura.

A partir daquele dia, todas as noites o Luzinhas ia para o quarto da menina, e ficava no quentinho a brincar. E a Matilde, que tinha um bocadinho de medo do escuro, passou a sentir-se bem e a dormir muito descansada.

Como o Luzinhas, outros pirilampos sofriam com o frio. O Luzinhas, que era brincalhão e amigo de todos, espalhou a notícia de que os quartos dos meninos eram muito quentinhos durante a noite. Por isso, ainda hoje, muitos meninos dormem com uma luzinha no seu quarto. São amigos pirilampos que lhes fazem companhia e os protegem do escuro.