O esquilo que não ouvia bem

O esquilo Afonso vivia infeliz. Todos os irmãos ouviam muito bem, só ele é que ouvia mal.

O Afonso era sempre o último a ir para mesa, o último a ir para a escola, o último a ir para o banho e até o último a ir brincar. E tudo porque o esquilo Afonso nunca ouvia quando o chamavam.

A mãe do Afonso andava muito preocupada e por isso decidiu levá-lo ao médico. O médico observou-o e fez diversos exames mas não encontrou nenhum problema de audição. Vários outros médicos se seguiram e o diagnóstico foi sempre o mesmo: o Afonso ouvia perfeitamente. A mãe ficou desolada, por não conseguir ajudar o filho, e o Afonso ficou ainda mais triste por ver a mãe assim.

Passou algum tempo até que o esquilo decidiu ir, ele próprio, procurar ajuda noutro lado. Começou por pensar em todos os animais que conhecia. Já sabia que os esquilos não percebiam muito do assunto, mas talvez outros animais tivessem a solução. Perguntou ao pai, à mãe, aos irmãos, qual dos vizinhos ouvia melhor e a resposta foi sempre a mesma:

– É o morcego, claro!

O esquilo Afonso decidiu então ir falar com o seu amigo morcego. Todos lhe disseram que os morcegos são os melhores ouvintes do bosque. Por isso o Afonso concluiu que os morcegos conheciam algum truque para serem assim tão bons.

O morcego ouviu tudo com atenção e depois respondeu-lhe:

– Nós não vemos muito bem, mas não há ruído nem canção que nos escape. Somos assim, não há truques nem magias. É a nossa natureza!

O esquilo Afonso voltou a desanimar. Mas por pouco tempo. Pensou melhor no assunto e foi perguntar aos pais e irmãos qual o animal mais sábio:

– É a coruja, claro! – responderam todos.

O esquilo decidiu então ir falar com a sua amiga coruja. A coruja ficou intrigada e até curiosa. Procurou em todos os seus livros. Observou o esquilo com atenção e até fez alguns testes, mas acabou por concluir:

– Pareces ouvir muito bem e nos meus livros não encontrei nada que indique o contrário. Desculpa, amigo esquilo, mas não te consigo ajudar.

Mais uma vez o esquilo desanimou. E mais uma vez voltou a ter uma óptima ideia. Foi ter com os pais e irmãos e perguntou:

– Qual é o animal mais esperto?

Aqui a resposta variou, tendo alguns dos irmãos discordado completamente. Mas os pais responderam o mesmo:

– É o rato!

Por isso o Afonso decidiu ir falar com o seu amigo rato.

O rato sentiu-se orgulhoso por acharem que ele era esperto e tentou verdadeiramente ajudar. Começou por criar uma água de limpeza especial, feita com flores e sementes. O Afonso usou aquela água algum tempo. Ao início parecia funcionar, mas depressa voltou tudo ao mesmo. Seguiram-se uns pauzinhos com algodão nas pontas, para ajudar a limpar os ouvidos um pouco melhor. Depois um creme e até umas gotas, mas nada funcionou.

– Desculpa amigo – disse por fim o rato – não consigo inventar mais nada que possa ajudar.

Um dia, o gato Tobias, ao ver o Afonso tão triste, foi falar com ele para tentar perceber o problema. O esquilo explicou tudo ao Tobias e este disse:

– Vamos falar com a aranha feiticeira. Ela é incrível, resolve tudo, vais ver. Não importa qual o problema, ela tem sempre a solução.

O esquilo estava com medo. A aranha feiticeira vivia num sítio sombrio e muito assustador onde nenhum esquilo se atrevia a ir. Mas mesmo assim, ele encheu-se de coragem e foi com o Tobias.

Quando chegaram a aranha parecia já estar à espera deles. Havia amuletos, teias, velas espalhadas por todo o lado. A aranha apareceu tapada por um véu roxo, envolta num fumo estranho da mesma cor.

– O que vos trás a mim, amigos? – perguntou a aranha.

– Viemos porque o Afonso não ouve bem. Os médicos dizem que não há nenhum problema com ele, mas a verdade é que ele não ouve bem. – explicou o Tobias à aranha.

– Não se preocupem, eu consigo resolver tudo! Nada é impossível para mim! – disse a aranha enquanto pegava em alguns pós coloridos. Depois concluiu:

– Agora escutem com atenção!

Mas o Afonso estava entretido a brincar com alguns amoletos que encontrou e não ouviu a aranha. O Tobias foi ter com ele e deu-lhe um pequeno empurrão. O Afonso logo se virou e deu atenção à aranha.

A aranha voltou então a fazer os gestos de preparação para o feitiço e repetiu:

– Agora oiçam-me com atenção!

Mas mais uma vez o Afonso estava distraído com alguma coisa e não ouviu nada.

Após várias tentativas falhadas a aranha começou a ficar irritada.

– Tobias, faz qualquer coisa, assim é impossível! Eu preciso de concentração absoluta para fazer o meu feitiço – disse a aranha.

O Tobias, que era muito esperto, foi ter com o esquilo e disse-lhe:

– Anda, vamos embora. Não precisamos de feitiços. Já sei qual é o problema e não é a aranha que o pode resolver.

– A sério? O que é? Diz-me, por favor! – pediu o Afonso.

O Afonso ficou entusiasmado. A ida à aranha feiticeira tinha sido um falhanço, mas o Tobias parecia mesmo saber do que falava.

Quando chegaram a casa do esquilo o Tobias explicou:

– O teu problema é que és muito distraído. Em casa da aranha feiticeira não foste capaz de estar atento um minuto que fosse! Não tens problema nenhum de audição, o teu problema é de atenção.

O esquilo ficou a pensar no que lhe tinha dito o amigo gato. Se não era um problema nos ouvidos, então de certeza que não havia solução.

No dia seguinte o Tobias foi ter com ele e levou-lhe um presente:

– Trouxe-te um presente: uns óculos de ouvir bem!

– Uns óculos? Não percebo. Estás a brincar comigo? Como é que uns óculos resolvem alguma coisa?

– Sim, com estes óculos vais passar a ouvir bem. Sempre que te chamarem os óculos vão vibrar. Vais ver, é mágico!

– Obrigado. Não acredito muito que funcione, mas vou experimentar.

O esquilo ficou tão feliz que foi logo contar a toda a gente e mostrar os seus novos óculos (que por acaso lhe ficavam mesmo bem).

Claro está que, o Afonso esquecia-se muitas vezes dos óculos em casa, mas pouco importava: a magia funcionava na mesma!

– Afonso, vem jantar.

– Afonso, vem jantar.

– Afonso, põe os óculos e vem jantar!